quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Dayan há Emêt

Há dois aspectos do judaísmo que são exclusivos desta religião: o Shabat e o Shivá. O Shabat é o dia de descanso, o dia de refrigério da alma, do corpo e principalmente do espírito. Ainda que muitos tenham dificuldade de entender seu significado, o princípio do Shabat (um dia semanal de descanso) é observado em várias nações. Já o Shivá não é tão popular quanto o Shabat, apesar de ser tão importante quanto. O Shivá (sete, em hebraico), são os sete dias de luto absoluto pela morte de um familiar próximo (pai, mãe, irmãos/irmãs, filhos/ filhas).

Nesta semana fomos ao funeral de Zelma Avraham (z”l), irmã de nosso querido rabino Joseph Shulam. Zelma faleceu aos 77 anos, tendo vivido uma vida “malê iomim” (repleta de dias), como dizemos em hebraico. Assim como há uma forma de se viver como judeu, há uma forma de morrer como judeu. No judaísmo há um respeito muito grande que envolve os rituais de morte assim como também há uma preocupação muito grande com quem fica, com quem sofre a perda.


Cemitério Judaico em Har Ha Zeitim (Monte das Oliveiras) - Jeruslaém. Aqui o Eterno iniciará o processo de Tikun Olam (restauração de todas as coisas) com a ressurreição dos justos.


Nos funerais judaicos podemos ver os princípios da Torá aplicados nitidamente. Como disse anteriormente, quando se vive como judeu, se morre como judeu. Primeiramente o enterro é feito o mais rápido possível após o falecimento. A Chevrá Kdishá (grupo de pessoas responsáveis pelos serviços funerários nos meios judaicos) cuida de todos os preparativos. Ao contrário dos funerais cristãos, no judaísmo não se tem contato com o corpo do falecido. Os voluntários do Chevrá Kdishá preparam o corpo lavando-o e enrolando-o em uma mortalha de linho branco. No caso de homens que usavam talit, o talit é colocado sobre o corpo, tendo um de seus tzit tzit cortados. Isto é feito em respeito ao falecido, pois neste momento todos os judeus (ricos, pobres, religiosos ou seculares) são preparados da mesma maneira. Também não há velório nem um serviço fúnebre, como em muitas igrejas. No judaísmo não há cremação. Os familiares, parentes e amigos se encontram no cemitério onde será o enterro. O corpo é trazido e colocado em um espaço onde todos se reúnem para orarem o Kadish. Os familiares agradecem a presença de todos e geralmente dirigem algumas palavras sobre o falecido. Não há ornamentas de flores e quando são utilizados caixões (geralmente em Israel não são utilizados), estes são simples urnas de pinho que sempre permanecem fechadas. Não há nenhum luxo, nenhum glamour. O judaísmo entende o corpo como “moradia” da alma, e o respeito com o mesmo é essencial pois crê-se na ressurreição no dia da vinda do Messias. Essa é a esperança de todo judeu.

Nos instantes antes do enterro, o rabino canta novamente o Kadish e o salmo 91 com os familiares, e tem-se o ritual do Kriá, o rasgo na roupa dos parentes próximos como sinal de tristeza e luto. Ao se cortar um pedaço da roupa, o familiar recita a seguinte bênção: “Baruch Atá Adonai, Eloheinu Melech há Olam, Dayan há Emêt” – Bendito sejas tu Senhor, nosso Deus e Rei do Universo, o VERDADEIRO Juiz. Um aspecto interessante é que logo após a colocação do corpo no túmulo, as tiras que amarram a mortalha são cortadas. Isto é feito para que não haja impedimentos para que o justo ressussite. (Não posso deixar de lembrar as palavras de Yeshua quando Lázaro foi ressussitado: "desatai-o e deixai-o ir"! - Jo 11:44).

Após o enterro os familiares diretos guardam o Shivá, o período de luto absoluto de 7 dias. Durante estes dias não saem de casa, nem se vestem com luxo. É um mitzvá (mandamento) visitar os que guardam shivá, levando comida para os mesmos. Neste período canta-se o Kadish 3 vezes ao dia, juntamente com os visitantes. Neste momento confortamos, consolamos, ouvimos, lembramos, choramos, rimos ou simplesmente nos assentamos e compartilhamos do silêncio e da dor dos que perderam um ente querido. Não os cumprimentamos com os cumprimentos usuais, mas os abraçamos e dizemos: “Ha Makom Ienachem etchem betoch shear avlei tzion virushaláim” – Que Deus os conforte entre os que lamentam em Sião e em Jerusalém”.


O salmista declara que a memória do justo permanece para sempre (Sl 112:6). Além disso, Salomão escreve que a lembrança do Justo é abençoada (Pv 10:7), ou seja, o justo continua abençoando, sendo luz e exemplo mesmo depois de sua morte. No mesmo cemitério onde ocorreu o enterro de Zelma, nos deparamos com o túmulo do Rabino Daniel Tzion (z”l) e pude então atestar a veracidade dos dizeres do Rei Davi e Seu sábio filho. Daniel Tzion foi o rabino chefe da Bulgária por muitos anos, sendo responsável por salvar milhares de judeus durante o nazismo na Europa. Apesar de ser um judeu discípulo de Yeshua, o rabino Tzion nunca deixou de viver uma vida no melhor estilo ultra-ortodoxo judaico. Ele nunca deixou de ser judeu.



Túmulo do rabino Daniel Tzion (z"l), discípulo de Yeshua e rabino chefe da Bulgária - Cidade de Holon, ao sul de Tel-Aviv

Bem, esta mensagem já está ficando longa. Que o Eterno de Israel possa abençoar a todos e que possamos viver nossas vidas de forma a tornar nossa memória uma bênção para os que virão. Esta é a minha oração ao “Dayan Há Emêt” – O Verdadeiro Juiz.

Shabat Shalom,

MZandona