quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Gloria Mound, pesquisadora da expulsão dos judeus da Espanha, morre aos 86 anos

 
Gloria Mound, palestrando na Conferência do Instituto Internacional dos Judeus Secretos (Anussim), em Netanya.
              Um incontável número de pessoas restaurou sua identidade graças à persistência quase obsessiva de Gloria Mound, uma imigrante veterana da Inglaterra para Israel, que dedicou quase quatro décadas de sua vida a pesquisar a história, dispersão e destino dos judeus expulsos da Espanha em 1492, abrindo assim as portas para muitos de seus descendentes reivindicarem sua herança.
              Mound morreu esta semana, com seus 86 anos, após uma longa doença. Até o fim, ela manteve sua paixão pelos descendentes de judeus expulsos da Espanha, muitas vezes referidos como “Anussim”, “Marranos”, “Cripto-judeus”, entre outros nomes.
              Seu trabalho começou por acaso, em 1978, quando Mound e seu falecido marido Leslie estavam passando as férias em Ibiza, nas Ilhas Baleares espanholas. Para sua surpresa, eles descobriram judeus que moravam naquele local desde 1492.
              Aquela revelação induziu os Mounds a voltarem e se empenharem na pesquisa, que se tornou cada vez mais fascinante para eles, a cada nova descoberta.
              Eles se depararam com documentos antigos, incluindo um rolo de Ester do século XIV, e quatro sinagogas secretas, que estavam em uso até o início da Guerra Civil Espanhola, em 1936.
              Quanto mais a Gloria aprendia, mais a geografia de sua pesquisa expandia.
              Ela e seu marido tinham a intenção de migrar para Israel, eventualmente, mas eles queriam passar um ano em Ibiza, antes de fazer a mudança permanente.
              Inicialmente em seus estudos, Mound conseguiu traçar a linhagem de seu marido até 1556, na Inglaterra e 1391, na Espanha.
              O casal montou uma casa em Ibiza, em 1985, mas ao invés de um ano, eles ficaram por três anos, antes de se mudarem para Gan Yavne, em Israel.
              Eles fizeram questão de publicar suas descobertas. Isso despertou interesse não só entre os acadêmicos, mas também em pessoas ao redor do mundo que sabiam que eram descendentes de espanhóis. Muitos observavam costumes que foram passados de geração em geração, junto com relíquias de rituais judaicos, sem a completa explicação para as tradições ou os objetos.
              Sem condições de confiar em sua própria finança, os Mounds começaram a procurar por recursos financeiros. Eles encontraram na forma de uma bolsa de três anos da Fundação Schalit, liderada por Elie Schalit, um magnata dos transportes, nascido em Jerusalém, que manteve um interesse e envolvimento permanente na pesquisa dos Mound, até sua morte, em março de 2015, aos 94 anos.
              A bolsa permitiu à Gloria pesquisar na Espanha, Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Caribe, América do Sul e África.
              Em todos esses lugares, ela encontrou descendentes de antepassados judeus. Muitos ainda praticavam costumes e tradições judaicas, sem saber exatamente por que, além de ter ouvido de um pai ou avô que era importante fazê-lo.
              Com a ajuda de Schalit, Gloria Mound estabeleceu a Casa Shalom, um centro de pesquisa que ela operava de sua própria casa, por vários anos. Em 1994, o local foi oficialmente registrado como Instituto para Estudos dos Marranos (Anussim). Naquele tempo, o trabalho de Mound já havia se tornado conhecido, atraindo muitos voluntários para sua casa, com o objetivo de ajudar com a documentação ou com a pesquisa. Outros começaram a financiar seu trabalho.
              Por mais que ela amasse o que fazia, Gloria precisava de uma estrutura acadêmica. Ela procurou uma instituição disposta a fornecer um lar permanente para seu trabalho e a extensa biblioteca que havia acumulado.
              O que ela mais precisava era de compromisso e continuidade. O Netanya Academic College foi quem, com prazer, consentiu em se comprometer.
              Em 2011, Gloria transferiu sua coleção de mais de 2.500 livros – alguns muito raros – e mais de 5.000 documentos para a escola.
              Ela frequentemente era consultada por acadêmicos, bem como por indivíduos que estavam tentando conectar com a história familiar.
              Com esse objetivo, a Casa Shalom pesquisou os arquivos do Serviço Internacional de Buscas, em Bad Arolsen, Alemanha – que abriga o maior registro no mundo das vítimas do Nazismo – na esperança de aprender quais vítimas de nacionalidade espanhola eram descendentes de judeus.
              A Casa Shalom também abriu uma filial em Jerusalém.
              Ao longo dos anos, Gloria participou de conferências, palestrou sobre os Cripto-judeus e seus descendentes, publicou um boletim informativo mensal e tentou orquestrar conversão para aqueles que tinham o desejo de voltar para sua religião ancestral.
              Gloria Mound foi enterrada no cemitério de Gan Yavne nesta segunda-feira. Ela deixou uma filha, Ruth Reschtschaffen, e um filho, David Mound. A família está guardando o shiva (luto) até sábado à noite, na casa de sua filha, 37/1 Hish St., Rehovot, telefone: 08-945-9176.

              Fonte: Jpost