sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A visão de Gabriel

Visitando as instalações da Hebrew University of Jerusalem pude notar que um certo alvoroço percorreu os corredores da instituição no mês passado. O motivo de tanta agitação foi um pequeno pedaço de pedra com um intrigante texto em hebraico chamado de “Visão de Gabriel”.

O alarde teve início depois que o professor Israel Knohl, do Departamento de Estudos Bíblicos da Universidade, propôs uma nova tradução para o enigmático texto, até então impossível de ser completamente traduzido. De acordo com esta interpretação, a palavra “Chayah” ou “viverá”, que aparece nos escritos da pedra é uma forma antiga da palavra “Viva!”, e mostra que o anjo Gabriel ressuscitaria um líder messiânico de nome “Príncipe dos Príncipes” (Sar há Sarim), três dias após a sua morte.

Professor Knohl analisa a "Visão de Gabriel"

A Visão de Gabriel é um texto datado do 1° Século a.C, descoberto há alguns anos na região da Transjordania, que descreve uma visão apocalíptica contada pelo anjo Gabriel. Uma primeira tradução foi publicada há 5 anos por alguns pesquisadores de Israel, mas só agora um acadêmico da área conseguiu finalizar o trabalho. Com a finalização da tradução, o professor Knohl sugere a reconstrução das palavras que geraram o texto: “em três dias volte à vida; o Anjo Gabriel te ordena!”.

O desenvolvimento da tradição em relação ao Messias, filho de José é baseado em eventos históricos REAIS, e a crença na ressurreição do Messias, três dias após sua morte, se desenvolveu ANTES da época de Jesus”, afirma o professor Knohl. “A idéia que a morte do Messias é parte integral do processo de salvação era uma crença COMUM entre certas classes do Judaísmo do período do 2° Templo. Com este achado concluímos que as principais bases do cristianismo (morte e ressurreição de Cristo e a necessidade do Sangue do Messias para redenção) não são cristãs, mas sim Judaicas!”, conclui o professor.

Há alguns anos temos visto várias descobertas arqueológicas que comprovam os fatos relatados no Novo Testamento. Mas desta vez não apenas os eventos foram comprovados. Desta vez a CRENÇA foi comprovada pela arqueologia! Agora podemos provar que a idéia da morte e ressurreição do Messias judeu era algo COMUM no judaísmo, e até mesmo sua ressurreição “ao terceiro dia” era algo estudado nos círculos judaicos. Cremos que outros achados serão revelados os quais contribuirão para apresentar a Israel seu verdadeiro Messias, seu verdadeiro SAR HÁ SARIM (príncipe dos príncipes).

Shabat Shalom,

MZandona

David Jeselsohn, o colecionador israelense que comprou a tabuleta milenar em um antiquário na Jordânia.

sábado, 9 de agosto de 2008

“Chorarei eu no quinto mês (Áv), fazendo abstinência, como tenho feito por tantos anos?” – Zc 7:3


Tishá be Áv (dia 9 do mês de Av) é o segundo jejum mais importante do calendário judaico. Neste dia, jejuamos e lamentamos por vários eventos que trouxeram calamidade para o nosso povo, que por coincidência ou não, ocorreram todos no mesmo dia, no 9° dia de Av. Vemos em algumas referências da Tanách (como Zc 7:3), que neste dia já era costume o jejum e o lamento. Também o Talmud (Taanit 29a) e a Mishná (Taanit 4:6), fazem referência ao Tishá be Áv. Lamentamos e nos lembramos dos seguintes eventos que ocorreram neste dia:

- O relatório catastrófico dos espias enviados por Moisés além do Jordão (que fez com que D-us punisse o povo com a proibição da entrada em Canaã) – Nm 13;

- A Destruição do 1° e do 2° Templos em Jerusalém (586 a.C e 70 d.C);

- A derrota da revolta de Bar Kochba (135 d.C);

- O Decreto de Alhambra, promulgado em 31 de março de 1492, ordenando que todo judeu deixasse o território espanhol até 31 de julho de 1492, dando início ao terrível período inquisitorial (31 de julho de 1492 equivale a 9 de Av);

- Também nos lembramos do período das Cruzadas e do Holocausto, onde grande parte do povo judeu pereceu;



Destruição do 2° Templo em Jerusalém (Francesco Hayes)

Neste dia fazemos um jejum completo, como em Yom Kippur. Também há o costume de sentarmos em cadeiras baixas ou deitarmos no chão, como fazemos em Shivá (primeiros 7 dias de luto por um familiar). Não usamos peças de roupas de couro, não nos lavamos nem fazemos a barba. Tudo para que 9 de Áv seja lembrado com grande tristeza. Neste dia, nem sequer saudamos as pessoas com palavras; apenas inclinamos a cabeça. A área do Kotel fica intransitável, e grande parte das pessoas que vem aqui dormem no chão, passando a noite lendo o Livro de Lamentações, o livro de Jó e o Kinnot (poemas de lamento). Este é o único dia no qual colocamos uma cortina preta sobre o Aron Há Kodesh e a Torá não é estudada. Tishá be Av é um dia de grande luto para o judeu.

Caminhando neste dia pelas ruas da Velha Jerusalém e, sentado ao chão, leio as palavras do profeta Jeremias. Sou tomado de grande tristeza ao vislumbrar as grandes tragédias que as nações nos causaram. Nós que deveríamos ser LUZ, ser Bênçãos para os gentios, nos vemos odiados, rejeitados e perseguidos. Mas maior tristeza ainda tenho quando vejo que muitas destas catástrofes poderiam ter sido evitadas se nós, como povo de Israel, tivéssemos dado mais atenção aos princípios do Eterno, obedecido e guardado profundamente em nosso coração os Seus mandamentos.


Área do Kotel (Muro Ocidental) durante Tishá be Av

Vejo Israel nestes dias e me preocupo. Leio as palavras de Zacarias e tento aplicá-las no tempo presente:

Fala a todo o povo desta terra, e aos sacerdotes, dizendo: Quando jejuastes, e pranteastes, no quinto (Av) e no sétimo mês (Tishrei), durante estes setenta anos, porventura, foi mesmo para mim que jejuastes? Ou quando comestes, e quando bebestes, não foi para vós mesmos que comestes e bebestes? Não foram estas as palavras que o SENHOR pregou pelo ministério dos primeiros profetas, quando Jerusalém estava habitada e em paz, com as suas cidades ao redor dela, e o sul e a campina eram habitados? E a palavra do SENHOR veio a Zacarias, dizendo: Assim falou o SENHOR dos Exércitos, dizendo: Executai juízo verdadeiro, mostrai piedade e misericórdia cada um para com seu irmão. E não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente cada um, em seu coração, o mal contra o seu irmão. Eles, porém, não quiseram escutar, e deram-me o ombro rebelde, e ensurdeceram os seus ouvidos, para que não ouvissem. Sim, fizeram os seus corações como pedra de diamante, para que não ouvissem a lei, nem as palavras que o SENHOR dos Exércitos enviara pelo seu Espírito por intermédio dos primeiros profetas; daí veio a grande ira do SENHOR dos Exércitos. (Zc 7:5-12)

Sim caros leitores, este é um dia de lamento, um dia de luto. Mas este deveria ser também um dia de arrependimento para nós (Israel) e para as nações. Para as nações pelas catástrofes causadas ao povo escolhido de Deus (quantas destas calamidades ocorreram por ordenança da Igreja? Quanta perseguição e intolerância os cristãos já demonstraram ao povo de Israel nestes 2000 anos de história?). Este é um dia para a Igreja e os povos da Terra arrependerem-se perante Deus e perante o povo judeu pelas atrocidades cometidas.

Mas este também deve ser um dia de arrependimento para nós, judeus. Em Yom Kippur nos arrependemos dos pecados cometidos como nação contra o Eterno. Em Tishá be Av deveríamos nos arrepender pela desobediência aos mandamentos do Eterno, que segundo ELE mesmo nos admoestou, traria calamidades sobre nós. Muitos dizem que a diáspora judaica já acabou e que agora todo judeu tem um Estado pronto para acolhe-lo. Mas eu digo que o judeu hoje em Israel ainda sofre uma diáspora ainda pior do que a física: há aqui uma diáspora espiritual! Ou seja, cada vez mais a sociedade israelense se esquece de quem é, de onde veio, e para onde vai. Cada dia mais vejo as pessoas mais distantes do Deus de Israel, preocupando-se mais em serem uma nação como as nações da Terra.

Área do Kotel (Muro Ocidental) durante Tishá be Av

Bem, Israel não é qualquer nação e eu não sou qualquer pessoa. Sou judeu e minha obrigação para com Deus e para com este planeta é ABENÇOAR, é ser LUZ e BÊNÇÃO, ensinando e cuidando para que os homens conheçam ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó e guardem os Seus preceitos! Orem meus queridos irmãos, para que Israel desperte de seu sono profundo; para que o véu que falou o profeta Isaías (Is 29:10) seja removido do rosto de meus compatriotas, para que voltem-se para a Torá e para os Profetas, reconhecendo o Messias a quem rejeitaram no passado. Que possamos todos a uma só voz declarar em tempo breve e oportuno: “Baruch Há Bá Be Shem Adonai” – Bendito é o que Vem, em nome do Senhor!

Ao término da leitura de Lamentações durante Tisha be Av, todos ficamos de pé e entoamos em uma só voz: HASHIVENU ADONAI, Elecha ve Nashuvá, Chadesh iameinu ke kedem. Faze-nos voltar a Ti Adonai, e voltaremos. Renova os nossos dias, como nos dias da antiguidade!

MZandona