No calendário secular é julho. No calendário judaico estamos em um
período chamado de “As Três Semanas”. Este é o corredor entre dois aniversários
doloridos: a data em que as antigas muralhas de Jerusalém foram violadas pela
primeira vez e a data em que o Templo foi destruído. O que isso nos diz, como
pessoas que se lembram dessas datas todos os anos? Será que é espiritualmente saudável
nos atermos a feridas antigas?
Nós vivemos
simultaneamente em um tempo linear (que flui em uma direção) e um tempo mítico
(o espiral anual que se repete). O calendário espiritual nos oferece pontos fixos,
onde o tempo mítico tem um impacto no tempo linear e este é um destes pontos
fixos. No meio da temporada de verão, tipicamente caracterizada por coisas como
férias e acampamentos, o calendário judaico oferece uma interrupção para nos
lembrar da tristeza.
Podemos não “querer”
esse lembrete. (Quem quer sentir dor – talvez especialmente em uma época do ano
que é tão verdejante e bonita?) Mas acho que precisamos do lembrete... e acho
que podemos nos apoderar dele para no ajudar a melhorar nosso interior. O
desafio é nos permitir sentir nossa tristeza plenamente e então, (quando o
tempo for apropriado), estar pronto e disposto a deixar essa tristeza ir embora
por completo.
A brecha na muralha
antiga de Jerusalém é uma abertura paradigmática de integridade e plenitude
para um quebrantamento. E como aqueles de nós que oferece cuidado pastoral bem
sabem, toda tristeza que sentimos abre uma porta para todas as outras
tristezas. Cada quebrantamento chama mais quebrantamento: seja a quebra de um
casamento, de uma trajetória de vida ou de um coração cheio de mágoas.
O calendário judaico
nos dá essas Três Semanas como um tempo de sentir esse quebrantamento que
caracteriza cada coração e cada vida. Essas semanas oferecem um convite, uma
oportunidade para sentir o que machuca. Não porque ficaremos nesse estado de
quebrantamento permanentemente, mas exatamente porque não ficaremos – e porque
reconhecemos que o quebrantamento é o primeiro passo para a cura, como
indivíduos e como comunidade.
A quebra das muralhas
da cidade há tanto tempo é um fato histórico. A queda do Templo é um fato histórico.
Nós recobrimos essas histórias com a verdade psico-espiritual que, como
Jerusalém, todos nós temos lugares quebrados, ou brechas. Como as muralhas de
Jerusalém, nossos corações podem se sentir rachados e às vezes nossas vidas
parecem escombros. As Três Semanas nos convidam a sentar sobre esses escombros
e prantear... por um tempo.
Todos nós temos datas
importantes em nossas vidas, como o aniversário da data em que deixamos a escravidão
no Egito (a Páscoa) ou a data em que o Templo caiu (o Tishá b’Av). Talvez para
você seja um aniversário de casamento ou de um divórcio; de um diagnóstico, uma
remissão, um novo emprego ou a morte de um ente querido. A data se torna cheia de significado. As Três Semanas são assim.
Durante e depois dessas Três Semanas, nossa tarefa consiste de duas
partes. Primeiro é notar e honrar onde nós estamos quebrados (ao invés de ceder
ao impulso de cobrir com panos quentes esses lugares quebrados). E a segunda
parte é nos desprender desses lugares quebrados. Ao sentir o que nos machuca,
podemos transcender a dor. O objetivo não é marinar perpetuamente em traumas
antigos, mas senti-los e então liberá-los.
Esta é a instrução codificada
em nosso calendário pelos sábios de minha tradição. Imediatamente após essas
Três Semanas de luto e recordação, entramos no período de sete semanas de consolação.
Após nos instruir a perceber e chorar por nossos lugares quebrados, os rabinos
nos prescrevem um período de sete semanas de conforto. Essas sete semanas de
conforto são nossa preparação para os Dias Temíveis.
O ano novo virá, não importa
o que. Mas se quisermos tirar o maior proveito da virada do ano, essas Três
Semanas de luto pelo nosso próprio quebrantamento pode ser um impulso para
crescimento pessoal. Essas semanas podem nos ajudar a abraçar as oportunidades
das Festas Bíblicas que estão por vir para nossa edificação. Paradoxalmente,
quando sentimos nosso quebrantamento plenamente, podemos nos tornar mais
capazes de deixar esse quebrantamento para trás.
Imediatamente após o
Tishá b’Av, (aniversário da destruição do Templo), existe uma “virada”
emocional e espiritual na direção da esperança. O pivô entre o luto e o consolo
depende de nós: precisamos estar dispostos primeiramente a nos deixar sentir o
que nos machuca em nossas vidas e no mundo ao nosso redor e então, deixar para
trás essas mágoas e nos permitirmos sentir acolhidos, ouvidos e inteiros.
Por Rachel Barenblat

