segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Vergonha de ser brasileiro

Por Sérgio Malbergier


O aspecto único do Holocausto, que o diferencia de horrores comparáveis como a escravidão, é que o extermínio do riquíssimo judaísmo europeu, berço de Einsteins, Kafkas e Freuds, foi executado pelo país mais culto da Europa pelo simples fato de os judeus serem judeus.

Eles não eram inimigos do Estado, não tinham exércitos, suas mortes não serviriam (prioritariamente) para o avanço econômico de seus perseguidores. Eram apenas de uma cultura/religião diferente e foram usados pela megalomania germano-hitlerista como a antítese do super-homem ariano, a ser eliminada do tecido alemão.

O sobrevivente do campo de extermínio de Auschwitz e prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, ao voltar à sua aldeia natal na Romênia, disse que a vida por lá continuava exatamente igual desde que deixara o lugar com a família, 40 anos antes, rumo à morte. A única diferença é que não havia mais judeus.

Quase 9 milhões de judeus viviam nos países europeus direta ou indiretamente sob controle alemão. Os nazistas conseguiram matar cerca de 6 milhões. Se os judeus não lembrarem seu Holocausto, ele certamente será esquecido.

Por isso embrulha o estômago ver o presidente Lula abraçar o presidente Mahmoud Ahmadinejad em Nova York poucos dias depois de o iraniano declarar que "o Holocausto é uma mentira".

O insulto de Ahmadinejad foi ainda mais doloroso por ocorrer às vésperas do Rosh Ashaná, o Ano Novo judaico, período de reflexão. Os grandes países ocidentais o deploraram. O Brasil se calou.

E logo depois ainda prestigiou o semi-pária num encontro de mais de uma hora na ONU, durante a Assembleia Geral da organização, para o mundo todo ver.

Lula e o Brasil estão no auge de sua projeção de poder. Estamos mudando de liga no jogo das nações. E nossa Chancelaria vende barato nosso cada vez mais importante apoio. O que o Irã dá em troca ao Brasil?

Antes de receber Ahmadinejad na cidade com a maior população judaica do mundo, Lula já havia sido o primeiro a apoiá-lo logo após a contestada eleição do iraniano. E ainda fez uma muito infeliz comparação dos conflitos entre oposicionistas e milícias armadas iranianas a uma rixa entre vascaínos e flamenguistas.

Tal rixa deixou dezenas de mortos e enfraqueceu um regime teocrático entre os mais repressores do mundo. Mas o Brasil de Lula foi o primeiro a estender sua mão para fortalecer o regime repressor de Teerã. E ainda receberá Ahmadinejad em visita em novembro.

O presidente brasileiro, genuinamente humanista, parece ter sido enrolado pelo anacrônico terceiro-mundismo que domina seus assessores e o Itamaraty. Ao ser questionado em Nova York sobre o negacionismo hediondo de Ahmadinejad em relação ao Holocausto, Lula respondeu:
"Isso não prejudica a relação do Estado brasileiro com o Irã porque isso não é um clube de amigos. Isso é uma relação do Estado brasileiro com o Estado iraniano."

A frase faria sentido se essa relação trouxesse benefícios ao Estado brasileiro proporcionais aos gestos de Lula. Mas ela só engrossa a lista de equívocos de sua diplomacia.

Já seria duro ver o Brasil tolerar a intolerância por recompensas mundanas. Tolerá-la por nada dá vergonha!

(*) Sérgio Malbergier, 42, é editor de Dinheiro da Folha. Foi editor de Mundo, correspondente em Londres e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela. Formado em cinema, pela ECA-USP, dirigiu dois curta-metragens: "A Árvore" e "Carô no Inferno"

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Rosh Ha Shaná 5770

A celebração de Rosh há Shaná (literalmente: “cabeça ou primeiro do Ano”), marca o início do ano judaico e é celebrado no primeiro dia do mês de Tishrei. Na verdade, alguns rabinos dizem que Rosh Há Shaná é o aniversário da criação, e que estaríamos completando 5770 anos de existência. Já outros rabinos afirmam que esta contagem iniciou-se logo após o dilúvio, e que os anos desde a criação até o dilúvio podem se estender por milhares ou até milhões. Todos sabem que no calendário bíblico o ano novo começa com o 1° mês, o mês atual de Nissan (geralmente em março/abril), com a festa da Páscoa como marco. Mas após o exílio na Babilônia, a contagem dos meses sofre alteração cronológica e nominal, e o primeiro mês passa a ser o sétimo (Tishrei). O dia da Trombeta, ou Yom Teruá, é celebrado no 1° dia do 7° mês, com grande convocação e toque do shofar (Lv 23:24-25).

Rosh Há Shaná é a única festa celebrada onde não há a explicação clara, da parte do Eterno, sobre sua origem ou memorial. Todas as festas no calendário judaico estão associadas a eventos ou à preservação da memória dos feitos do Eterno para com o nosso povo, tal como Páscoa (Libertação do Egito), Shavuôt (dádiva da Lei no Sinai) e Sucôt (lembrança da peregrinação no deserto). Mas Yom Teruá (Rosh Há Shaná) não é conectada a nenhum feito ou evento histórico na Torá. Muitos rabinos crêem que Yom Teruá é uma festa que anuncia o retorno do Messias, sendo o toque do Shofar um aviso para que Israel e as nações se preparem para recebê-lo.

Judeu ortodoxo toca o Shofar no Kotel, na madrugada de Rosh Ha Shaná

Como Yom Kipur (dia da expiação) é celebrado 10 dias após Rosh Há Shaná, dizemos que Rosh Há Shaná marca o início do juízo do Eterno sobre a criação, sendo o dia de Yom Kipur o dia do veredicto. Assim, os 10 dias entre Rosh Há Shaná e Yom Kipur são conhecidos como “os 10 dias temíveis” ou “Iamim Noraim” e é um período de muita oração, súplica e arrependimento entre o povo judeu, com o toque do Shofar a cada serviço. Daí surge um dos comprimentos mais comuns durante estes dias: “Tikatev vê Taihatem” - “seja escrito e selado”. Desejamos isto pois cremos que o Eterno possui o Livro da Vida, e nele são escritos os nomes dos justos. Durante os 10 dias entre Rosh Há Shaná e Yom Kipur, estes nomes são “revisados” pelo Eterno, que o sela em Yom Kipur. A crença da existência deste “Livro da Vida” é proveniente da Lei Oral judaica e também pode ser encontrada nos escritos judaicos do Novo Testamento, onde há várias menções ao mesmo, como em Fp 4:3, Ap 3:5 e outras.

Começamos a celebração de Rosh Há Shaná com um maravilhoso jantar, acompanhado de algumas orações específicas para este dia. Comemos neste dia maças com mel como um símbolo do desejo de um ano novo doce e agradável a todos. A chalá (pão de shabat) que é usada no jantar de Rosh Há Shaná não é comprida, mas sim redonda, simbolizando o ciclo da vida que se renova a cada ano. Desde a antiguidade, estipulou-se que a celebração de Rosh Ha Shaná duraria 2 dias, pois no passado não havia certeza do dia específico (1° dia do 7° mês), em função de ser uma festa da lua nova. Assim, os dois dias de Rosh Há Shaná são passados quase sempre na sinagoga, onde tocamos o shofar e oramos um conjunto de orações específicas que estão agrupadas no Machzor (livro de orações para Rosh HÁ Shaná e Yom Kipur). Basicamente são orações de agradecimento, louvor e principalmente arrependimento. Neste dia, colocamos sobre o Aron Ha Kodesh (arca que contém o rolo da Torá) uma cortina branca, simbolizando a necessidade de termos um coração puro perante o Eterno.

A leitura da Torá é feita em Genesis capítulos 21 e 22, relatando o evento da “Akedá”, onde Abraão sobe com seu filho Isaque ao monte Moriá para sacrificá-lo. A Haftará que lemos é a história do profeta Samuel, seu nascimento e seu chamado sacerdotal (I Sm caps 1 – 3). É impossível estudarmos estas porções da Tanách e não notarmos uma palavra que é o tema central dos dois eventos: HINENI! Esta pequena palavra em hebraico expressa o que realmente sentimos e o que realmente estamos dispostos a fazer por amor ao nosso Deus: HINENI – EIS-ME AQUI! A expressão HINENI expressa nossa prontidão para obedecer e servir incondicionalmente ao nosso Criador. O sacerdote Eli instruí a Samuel: Hineni – Daber Adonai ki shomêa avdechá – Eis-me aqui! Fala Senhor pois está a ouvir teu servo!

AKEDÁ, representada por Laurent de La Hyre - 1650

Por isso, nosso desejo para todos vocês neste ano novo que tem início nesta semana é que possamos ter o espírito de Abraão e o espírito de Samuel, servos verdadeiros que não se preocupavam apenas em crer em Deus, mas em obedecê-Lo de todo o coração, não importando as circunstancias. Tenho certeza que os que vivem o verdadeiro “HINENI”, terão seus nomes escritos e selados no Livro da Vida.

A Todos, nosso Chag Sameach e um sincero Shalom,

Joseph Shulam e Matheus Zandonna